sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Virgílio matou o escritor



Virgílio pode seguir o caminho que quiser. Virgílio sabe que pode seguir o caminho que quiser. Virgílio é uma personagem. Ele sabe que as palavras podem ser apagadas e tudo voltar a ser como era antes. Se as páginas forem rasgadas, não será sua carne. É apenas papel.

Virgílio abre a gaveta e pega a arma. Senta na cama, pensa em algo nobre para se dizer antes de morrer e não encontra nada em sua cabeça vazia de personagem que ainda não foi preenchida pelo seu criador.

Antes que pudessem interferir, Virgílio puxa o gatilho e tomba sobre o lençol. Não sente dor porque sua cabeça está vazia e seu corpo não possui neurônios.

Cai no limbo. Virgílio matou-se contra a vontade de seu criador.

O escritor coça o queixo, passa as mãos pelo rosto e expira longamente. Ultimamente Virgílio tem feito coisas contra sua vontade. É de se pensar se deve mesmo voltar ao mundo das páginas.

Toda teimosia tem algum sentido, pensa o escritor. Virgílio não pensa em interromper a vida por um desgosto profundo, ele quer viver. Virgílio quer morrer apenas para se certificar de que pode reviver. Tem convicção de que pode seguir o caminho que quiser porque é uma personagem e são as páginas de papel que são rasgadas, são as palavras numa tela de computador que são apagadas, não sua carne.

Virgílio não tem carne, ele é uma ideia. Ele sabe que é uma ideia e que pode ir aonde quiser, que as ideias são livres. Ele pode correr, se atirar pela janela e voar antes de atingir o chão. Por vezes escolhe o chão, por vezes o voo. Ele pode voar com asas, ou pode pilotar aviões. Ele pode ter turbinas. Pode voar com o pensamento, levitar.

Ele pode ter cinco, seis pulsos e cortá-los de diferentes formas e descobrir qual a mais eficaz. Pode tornar mais eficaz a menos eficaz. Pode arrancar a dor e transformá-la em cheiro. Virgilio sabe que é exercício, assume essa condição e se expande. Ele não é músculo, não é físico, ele pode se expandir para sempre.

Sobe todas as escadas que encontra em seu caminho e muda de rosto. Virgílio é mulher, mas tem um pau. Virgilio é possibilidade e ninguém pode dizer o contrário. Não existe regra. É uma mulher que tem um pau num universo sem limites e regras.

É casado com outras mil mulheres com paus e bocetas e peitos e orelhas e bocas de onde vêm o prazer e a felicidade e as doenças e as dores.

Ele é um rio que engole barcos e árvores e cavalos e casas. Virgílio tornou-se uma tormenta que se juntou ao rio e destrói tudo abaixo de sua nascente. Perde força, cansado, morre no mar.

Ele chega em casa depois de um dia cansativo de trabalho. Senta na cama, abre a gaveta da cabeceira, pega a arma. Atira na família, na cabeça e depois no escritor. Espera ressurgir mulher, cachorro, bicicleta, voltou ao limbo. Ele vai sair dali, ele sabe que sairá dali vitorioso.

Ele personagem ideia exercício possibilidade aguarda sua nova vida que não virá.

Virgílio matou o escritor.

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