terça-feira, 25 de junho de 2013

Brasil: o país do passado.

 
A tela de Pedro Américo, belo retrato do nosso faz de contas.
 
 
Eu não diria que o Brasil é um país atrasado. O Brasil é um país reativo. Existem os que fazem, descobrem, desbravam; existem os que copiam, reagem, chegam depois. Esses últimos, somos nós. Historicamente esperamos que outros façam para seguir seu caminho, ou outro melhor.
Alguns defensores da pátria podem argumentar (!) que é uma conduta precavida, afinal de contas o país não precisa pagar o ônus do risco e pode seguir por estradas pavimentadas rumo a um futuro certo. Balela.
A verdade é que sempre fomos medrosos, uns; mal intencionados, outros. Por isso estamos sempre fora do tempo.
Nossa independência foi a afirmação de um primogênito sobre o patrimônio do pai, mais ou menos como o filho da Luma ganhar uma empresa de Eike. Algo que iria acontecer, cedo ou tarde. Não houve rompimento, batalha, conquista, não há do que nos vangloriarmos. Não houve independência, houve transferência.
Era uma tendência continental, a independência dos Estados, que João evitou antecipando a legitima.
Depois disso, nosso grande progresso foi a Lei Áurea, algo do qual deveríamos nos orgulhar, se tivesse sido promulgada cem anos antes. Não existe signo mais vexatório e explícito da nossa condição de ‘país que espera pra ver no que vai dar’ do que ser o último país independente a declarar o fim da escravidão negra.
E, se contamos alguns pioneiros entre os nossos (Santos Dumont, Leônidas da Silva... desculpem, mas são os únicos dos quais consigo me lembrar agora – cartas para a redação), deve-se mais à força da genialidade individual, que a qualquer espécie de característica marcante de nossa comunidade nacional. Não construímos o hábito de sermos os primeiros.
É verdade que se a falta de pioneirismo não é motivo de orgulho, também não precisa ser motivo de vergonha. O problema é que tem sido.
Seguir os passos certos de alguém que caminhou à frente pode ser benéfico e deveria ser a escolha natural. O problema surge quando escolhemos os passos errados. Quando fazemos essa escolha, ficamos presos no passado (o tal do atraso) sem possibilidade de avanço.
O sistema de cotas raciais foi implantado nos EUA na década de 1960, como meio de diminuir a enorme diferença social entre negros e brancos, possibilitando à parcela negra o acesso ao sistema educacional de qualidade e ao mercado de trabalho.
Extinto em 2007 pela Suprema Corte daquele país, a politica afirmativa teve papel preponderante na integração racial, mas seu tempo está reconhecidamente extinto.
Pessoalmente sou favorável ao sistema de cotas como meio de acesso aos canais sociais, com as ressalvas comuns de que não deve estar restrito à cor de pele (sem aquele papo tolo de que o sistema de cotas provoca um racismo que não existe. Um dos maiores sinais de nossa prisão ao passado é o racismo/preconceito latente de TODO brasileiro), justamente porque deve servir também como meio de integração social e não apenas racial.
Pois bem, no Brasil, essa política de afirmação começou a ser discutida a partir do final da década de 1990 e colocada em prática de forma arbitrária, seguindo parâmetros equivocados, sem que se tenha ouvido a sociedade de forma ampla, na década de 2000. Ou seja, a mesma na qual os EUA a aboliram.
Outro exemplo remonta ao ano em que nasci. Em 1976, surgiu nos Estados Unidos uma igreja chamada Exodus que tinha como principal bandeira a luta contra a homossexualidade, atuando a favor da sua criminalização (!) e promovendo métodos de ‘cura gay’, desenvolvidos pelo seu líder, Alan Chambers. Bom, vocês já sabem aonde quero chegar.
Ocorre que, recentemente Chambers assumiu publicamente que sente ‘desejos homossexuais’, fechou a igreja e pediu desculpas à comunidade homossexual pelos anos de dor e sofrimento que suas ‘pregações’ causaram.
O Projeto de Lei nº 234 de 2011 está baseado numa farsa moral assumida publicamente, coincidentemente, na mesma semana de sua aprovação na CDH da Câmara Federal, no Brasil.
Vivemos em um país em que o direito de votar pelo qual uma geração lutou, se transformou em dever. Moramos em um país em que os homens são obrigados a servir às Forças Armadas. Faz vinte anos a nação ouviu o presidente dizer que nossos carros eram carroças atrasadas (sua única frase verdadeira, a despeito da demagogia implícita). Faz trinta, voltamos a votar. Faz quarenta, foram suprimidos todos os Direitos individuais. Faz cinquenta, derrubaram um presidente eleito democraticamente e aplicaram um golpe de estado. Faz sessenta, ou setenta ou oitenta de outro golpe. Há oitenta anos, mulheres não eram sujeitos de direito no que se referia à eleição e tantas outras coisas. Somos um país fora do tempo.
O estouro da boiada ao qual estamos assistindo - alguns de nós participando, surge em um momento mais adequado, mais próximo do resto do mundo. Não se pode dizer que somos pioneiros, diante do que aconteceu no Egito, na Líbia, na Síria, na Turquia, em NY. Mas a nosso favor podemos dizer que eles também não são lá tão originais. Movimentos sociais contrários ao status quo sempre ocorreram, desde Caim e Abel (o preferido).
O que vivemos talvez seja o início de algo novo para o Brasil, uma viagem no tempo. Estamos nos deslocando do passado para o presente (o futuro estará sempre longe), apesar de muita coisa ainda tentar nos prender décadas atrás.
Talvez seja a oportunidade de mudar ao menos isso, o tempo de nossas vidas, e deixar para trás quem merece ficar pra trás.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

A cidade de plástico.

 
Cidade Lego, igual a tudo o que você tem visto por aí. Quem imita quem?
 
Quando meus pais voltaram de sua primeira viagem à Europa, no já longínquo ano de 1994, ouvi do velho uma frase que me soou ambígua e que demorei a compreender: “Como sempre imaginei, a Suíça parece uma maquete.”
Já que nunca fui ao velho continente, e por óbvio à Suíça, a ambiguidade permaneceu intocada por muitos anos, até que eu pudesse reunir senso estético e discernimento suficiente para chegar às minhas próprias conclusões.
Sempre gostei de quebra-cabeças e a lembrança mais viva que tinha daquele país vinha das fotos assépticas de paisagens estampadas nas peças de montar, além do queijo furado. Não sabia se achava bonito ou vazio (o vazio pode ser bonito, mas não aqui).
Em tempos de Brasil ‘rico’, logo surgiram prefeitos falsos progressistas que escolheram convencer o mundo de nosso avanço pelo meio mais fácil, construindo (ou tentando construir) cidades maquetes.
No caso do Rio de Janeiro, tudo começou pela orla: foi-se a vegetação rasteira nativa, chegaram as ciclovias. E a coisa foi se espalhando, e tomando a cidade, prefeito a prefeito, como se vivêssemos dentro de um Simcity Rio (a frustrada sede do Guggenheim e a fantasmagórica Cidade das Artes são tristes exemplos).
Após a confirmação da cidade como sede dos Jogos Olímpicos 2016 e palco da final da Copa do Mundo de 2014, a transformação chegou a níveis impensáveis, alavancando a especulação imobiliária e outros males, dentre os quais, a modificação agressiva e sem critério de muitos cantos da cidade.
Não sou saudosista, mesmo porque sequer tenho idade para tanto, e por isso deixo de fora da conversa a reforma do Maracanã, que já tive o prazer de conhecer reformado. Falo da cidade mesmo, de uma forma geral. Fico com a impressão de que sofremos da síndrome da atriz vaidosa que, inconformada com a velhice, prefere preencher com botox as marcas da sua identidade estampadas no rosto.
Havia poucas, mas boas referências históricas espalhadas por aí. O casario da Rua da Carioca, os Cortiços da zona da Lapa, o Morro da Conceição e os sobrados da área da Gamboa/Saúde, local aonde quero chegar.
Trabalho na Praça Mauá, localidade que sofre rápida reforma com o objetivo principal de derrubar o Viaduto da Perimetral e jogar os carros pra baixo da terra. E onde ainda existe (ou persiste) boa parte de sobrados que deveriam dar à cidade uma marca arquitetônica, uma referência temporal importante para a criação de uma identidade ao longo do tempo.
Não à toa, no início das escavações para a construção de um túnel na região, foi encontrado um verdadeiro tesouro arqueológico que pode ajudar a contar a história da ocupação da cidade, remontando ao século XVIII. As obras pararam, o tesouro enterrado foi recolhido e catalogado, mas o tesouro exposto menosprezado. Os prédios antigos dão lugar a modernos monstros de vidro espelhado que refletem nosso rosto estupefato em cada esquina.
Compreendi, então, que a questão não é achar uma cidade maquete bonita ou feia, boa ou ruim, tão somente por esse conceito. Num sentido prático, acho que deve ser bom morar numa cidade limpa e funcional, como as da Suíça.
O que me inquieta é saber que, já que podemos viver numa maquete, por que não em uma que represente nossa cultura e conte nossa história? Por que precisamos, ou desejamos, ficar parecidos com Los Angeles, ou Chicago, ou Boston, ou Tóquio, ou São Paulo, ou todas as outras, que por sua vez ficam cada vez mais parecidas com nosso lado plástico, sem gosto, ao invés de seguirmos o exemplo de Roma, Paris, Barcelona, Atenas, que são atuais sem se render à palidez?
A questão, enfim, transcende à estética, ao gosto pessoal, o maior perigo é terminarmos playmobil morando numa cidade feita de Lego.
 
Mercado Municipal de SP:
Um bom exemplo de serviço modernizado num espaço histórico preservado. 

 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Esconjuro, pé de pato, mangalô três vezes.




O fim do ano se aproxima e os assuntos são sempre os mesmos: amor, fraternidade, peru, expectativas para o que vem pela frente, aquela velha história do ciclo que se fecha e renova, roupa branca, chuva na virada do ano. Esse ano teve a novidade do fim do mundo, que ocupou um tanto de páginas por aí, o que foi divertido – pelo menos eu me diverti. Minha contribuição para os assuntos recorrentes é falar sobre superstição.

Cresci numa família cristã (bastante) conservadora. Lembro-me da reprimenda que levei do meu pai quando contei que lia, regularmente, o horóscopo no final do jornal. Nunca acreditei em astrologia, mas achava engraçado ler os conselhos clichês, ou mesmo aqueles jogos de perguntas que indicavam que o leitor teria sido um guerreiro celta, ou uma princesa na idade média, encarnações antes. Mas isso era uma blasfêmia.

Já, no campo das superstições, meu pai era craque. Eu, aluno fiel. Para longe da hipocrisia, o quadro é a reprodução fiel do brasileiro sincretizado, que tem suas crenças e rejeita outras – embora superstição não seja exatamente uma crença. E, quando se vê encurralado, acaba acusando o golpe e admitindo a culpa. Tanto que, certa vez, ao evitar passar por baixo de uma escada na Avenida Rio Branco e quebrar o pé, o velho disse diante do meu sorriso, “Não falei que essa porra de superstição é blasfêmia?”

Não adiantou o exemplo doloroso, mantenho as minhas até hoje. Não ligo para a cor da roupa no dia da virada, nem pra comida da ceia, por que não ligo para o réveillon. Infelizmente minhas crendices se manifestam em coisas mais sérias.

Por exemplo, esse ano assisti a todos os jogos do Flamengo na companhia de uma imagem decapitada de São Judas Tadeu. Pois é, por conta de um acidente doméstico, São Judas perdeu a cabeça. Talvez isso explique as terríveis campanhas do time. Prometi a minha mulher que ano que vem, ou colo a cabeça do santo, ou compro outra imagem.

Por falar em minha mulher e futebol, ela mesma tem suas manias, como permanecer na mesma posição em que estava quando o Flamengo fez o gol. Isso pode ser complicado, acredite em mim.

No campo profissional, nunca conto a ninguém quando estou tendo sucesso, ou quando as coisas vão mal. Não tem nada a ver com manter segredo previdente, é crendice mesmo. Se me perguntam como vão as coisas no trabalho, respondo, há 12 anos, que estão bem, e nem sempre estiveram.

Não gosto de jogar tênis de meias curtas, mas meu jogo não melhora quando coloco meias compridas. Não pego elevadores que demoram muito, mas nunca soube de algum que tenha despencado depois que desisti de entrar. Ou seja, superstição é mesmo uma tolice.

No próximo dia 31 um exército vestido de branco invadirá Copacabana, pularão sete ondas, atirarão caroços de uvas nos telhados, comerão lentilha (bicho que cisca pra trás, jamais), estourarão champanha, ou não, e tudo será igual no dia seguinte, ou não.

A graça da superstição não está no resultado, está na situação em si. Na loucura lúdica, no medo infantil que leva um sujeito de sessenta anos a desviar de uma escada e quebrar o pé, e se encerra ali. É quase um TOC – às vezes se transforma mesmo em obsessão.

Ou será que você acredita mesmo que vai resolver seu problema amoroso se passar o ano de cueca vermelha. Bom, você pode até crer nisso, mas antes de vestir essa peça constrangedora, dê uma olhada no espelho, escove o dente e reveja a lista de amigos. Vai que você é feio, tem mau hálito e é chato. Nesse caso, meu caro, eu garanto, não tem cueca que salve.


trilha dos supersticiosos:






domingo, 16 de dezembro de 2012

É hora de dar tchau





Tem uma coisa de Teletubbies nessa zoeira de fim de mundo programado que me agrada. Seria bom se sempre soubéssemos a data exata do fim. Do fim de qualquer coisa.

Preocupa (será?) a possibilidade de na próxima sexta-feira o mundo seguir adiante, mas um bando de malucos sair matando gente por aí, sair engravidando, sair se endividando. Por mais que pensem ser exagero, pode crer, o sábado promete as manchetes mais toscas do milênio. E é disso que eu estava falando no parágrafo anterior, isso que me agrada.

Pensando como loucos, ou irresponsáveis, as pessoas acabam vivendo como deveriam viver. Bom, não sei se como deveriam viver, mas vivem melhor, sem grandes planos, que as coisas boas acontecem quase sempre naturalmente.

Não quero fazer apologia do descompromisso, viver sem grandes planos não significa ser irresponsável. É que eu vejo as pessoas gastando tanto tempo com os planos, pensando no que vai ser quando chegar ao objetivo, que não aproveitam todo o resto, que é na verdade a vida.

E aí, vem de novo aquela ideia do fim do mundo programado, todo mundo fazendo o que der na telha (soube de um caso verdadeiro de empréstimo vultoso fiado no apocalipse), aquilo que reprimia por conveniência ou insegurança, e que explode apoiado na única certeza da semana: o mundo vai acabar.

Ora bolas, a única certeza que temos desde que levamos a palmada na maternidade é a de que o mundo, um dia, vai acabar para nós. Vá lá, talvez seja a novidade do fim coletivo, não vou sozinho, vamos todos lotar o barco. Mas, no fim não faz diferença, um dia ele acaba mesmo, e nós gastamos o tempo sem pensar nisso, fazendo grandes planos, sonhando.

Pense, então, na possibilidade de saber a data exata do término de um namoro, da morte da sua mãe, do dia em que você vai ficar rico, ou pobre. Pense em como seria sua vida se você soubesse o dia exato em que coisas sobre as quais você não tem controle vão acabar, ou começar, ou acontecer. Nas coisas incríveis que faria, no tempo que passaria ao lado da pessoa, no valor que daria a cada momento.

Essa deveria ser sua vida normal.

Não é fácil, eu também não sou assim, e acho que não passarei a ser se o mundo continuar a girar no sábado. Na verdade, essa crônica foi só uma maneira de gastar o tempo fazendo o que mais gosto, vai que...



Minha música favorita de fim de mundo: it´s the end of the world as we know it - R.E.M.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Como se fosse ontem

Kiko, eu, Victor, Fabinho, Rafinha e Gabi.


Depois de duas semanas, voltar como se nada tivesse acontecido (de certa forma, nada aconteceu, ao menos nesse blog, nas últimas duas semanas). E eu apareço assim, sem dar explicação, querendo sua atenção como se o nada que aconteceu fosse tudo que tivesse que acontecer.

A verdade (nessas horas ela é sempre a melhor explicação) é que, há uma semana, não sabia o que escrever. O tempo passou, quando notei era sábado. Então bateu preguiça e resolvi esperar até hoje, duas quartas-feiras depois da última crônica. Como ninguém ligou, mandou e-mail, chorou ou cometeu suicídio, acredito que o mundo passou incólume à minha desídia.

Novamente, diante da tela (preciso contar a verdade), não veio nada, a não ser pensar que voltei duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido (de certa forma, nada aconteceu, ao menos nesse blog, nas últimas duas semanas).

Fiquei olhando a tela branca, que de tão parada dava a impressão de se movimentar, primeiro como se tivesse entrado em um túnel claríssimo, depois como se tivesse mergulhado solto no ar e a tela fosse um chão aceso que nunca chegava. Viajando até aparecer um rosto. Indecifrável, no início, mas que logo tomou uma forma conhecida. Tornou-se, por fim, o rosto de um amigo, um grande amigo, e eu compreendi o motivo.

Luiz é um desses caras com quem eu gostaria de encontrar todos os dias, gostaria que morasse no apartamento do lado, gostaria de levar nossos filhos juntos ao futebol. É um sujeito que me conhece tão bem e há tanto tempo (primeiros registros apontam o ano de 1983) que nossas vidas terminaram se tornando uma coisa meio misturada.

Nossas mulheres se adoram, sou padrinho do seu filho, e de casamento. Sua esposa é minha madrinha de casamento. Sua família me acolhe como um filho paralelo, a minha responde da mesma forma. Somos, enfim, o que as pessoas costumam rotular de melhores amigos.

Assim, nos vemos com a frequência de, uma, talvez duas vezes... ao ano.

Ele não mora do outro lado do mundo, nem eu sou um sujeito assim tão ocupado. É que acabamos caminhando, embora paralelamente, em vias separadas.

Por que lembrei disso? Porque sempre que nos encontramos é como se tivéssemos nos encontrado ontem, talvez uma semana antes, mesmo tendo se passado um ano. Não há chateação. Ninguém fica magoado se o outro se esquece de ligar no aniversário (isso nunca acontece, é verdade), ao contrário, estarmos juntos é sempre motivo de festa.

Quando nos despedimos, não existe preocupação, ou tristeza, mesmo sabendo que em um ano, ou seis meses, muita coisa pode acontecer. Tenho sempre a impressão de que o Luiz mora a quatro casas da minha, como na infância, e eu posso tocar a campainha à hora que quiser, pelo motivo que for, nem que seja para jogar conversa fora, mas principalmente para construir uma história real, que isso são os amigos: histórias reais.

Eu sinto saudade e sei que ele também sente, nem por isso cobramos do outro mais do que damos ou recebemos, nem por isso estamos sempre disponíveis, afagando o ego ou realizando as vontades do outro, isso é história real e a nossa é incrível.

E quando nos encontrarmos novamente, sabe-se lá em que circunstância, nos olharemos do mesmo jeito que fazíamos quando íamos jogar bola no campinho (os dois, goleiros), como se nada tivesse acontecido, apesar de tudo o que aconteceu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

É sério isso?

A Metamorfose: Gregor Samsa se transforma em um inseto horripilante


Cena 01:
Senhora muito idosa, de cabeça branca, parada na calçada, com olhar desamparado voltado para porta aberta de um ônibus.
Lá dentro, sentado em seu trono, o motorista dispara:
“Sem identidade e sem cartão de gratuidade, não posso liberar.”
O escritor, que passava à toa pela local, para ao lado da velhinha e pergunta:
“É sério isso?”
O escritor sai apressado antes de ouvir o Motorista-Rei mandá-lo guardar a petulância numa parte secreta de sua anatomia.


Para quem leu ‘O Processo’ antes de se deparar com situações como essa, todo absurdo faz mais sentido. E cada vez mais, somos atores dessa farsa, onde a subversão da ordem comum, da gentileza e do ‘normal’ torna-se regra.

Poderia roteirizar inúmeras cenas semelhantes, tomando emprestado como cenário o Rio de Janeiro. Por exemplo, o povo cansado voltando do trabalho, ansiando por um banho relaxante e um prato de comida, sendo obrigado a ouvir o funk que o ‘amigão’ coloca no último furo dentro do metrô, ou o sujeito que acende despreocupadamente seu cigarrinho na mesa do restaurante fechado.

Invariavelmente, pessoas que praticam despropósitos não compreendem a reação de terceiros, por que são parte do próprio quadro. Sua lógica é outra, em sentido inverso, assim como para o policial entrar no quarto de Joseph K. pela manhã, sem ser anunciado, é algo que deveria ser esperado.

Faz tempo que prefiro interpretar esse movimento comportamental não como consequência de algo maior, como falta de investimento em educação, mas como um movimento evolutivo – nem tudo evolui para o bem. Já escrevi antes, as coisas são como são e fazer esforço para mudar sua natureza é tentar nadar em terra firme.

Esses quadros kafkianos que surgem – com maior frequência – em nosso cotidiano são provas dessa teoria. Não estamos mais mal educados, somos mal educados. Não estamos menos gentis, somos nada gentis, o que José Datrino notou faz tempo, ele próprio nadador profissional de terra firme.

Daí surgem expressões como a do escritor, que estupefato diante da cena 01, nada lógica, ou gentil, consegue apenas perguntar ‘é sério isso?’, mas não tem força para modificá-la. Resta a ele escrever sobre o assunto e vamos seguindo.

E não pense você que está livre de trocar de papel. Certamente esse escritor já cometeu equívocos tão cabeludos quanto o do motorista, é tudo questão de oportunidade e perspectiva.

Talvez o tempo ensine melhor uns, que outros, a lidar com situações como essa, pois no fundo a vida é um grande absurdo e tem gente que sabe interpretar melhor o papel. O que me faz lembrar da segunda cena, ocorrida uns dez anos antes, com outros atores, outro cenário, outro desfecho.


Cena 02:
Senhora muito idosa, de cabeça branca, entra na fila preferencial do supermercado empurrando com dificuldade o carrinho repleto de compras.
Funcionária que opera o caixa cerra os olhos, crispa os lábios e dispara:
“Por que você entrou nessa fila? Por acaso é idosa?”
A velhinha ajeita o corpo, estufa a barriga e responde fleumática:
“Não filhinha, é que eu estou grávida.”
Funcionária abaixa a cabeça. Clientes em volta caem na gargalhada. Minha avó nunca leu Kafka.


* todas as cenas descritas são verdadeiras, e você ainda topará com uma delas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Quero ficar no teu corpo

Um belo exemplo do que se tornou a tatuagem



Demorou mais de dois milênios, mas conseguimos acabar com o sentido de uma tradição que, para algumas civilizações, teve grande relevância cultural, religiosa e social: A tatuagem.

Há uma discussão arqueológica em torno de sua origem – não sei afirmar o quanto o assunto é importante a ponto de gerar uma discussão científica, mas muitos achados indicam que pode ter surgido no Egito antigo (sempre eles), na Polinésia, na Indonésia, nas Filipinas ou na Nova Zelândia.

Pouco importa. Certo é que para esses povos, a tatuagem era mais que mero enfeite, representava uma marca de identidade.

Geralmente ligada à religião, na Idade Média a Igreja Católica (sempre a gente) proibiu a tatuagem, que considerava um vilipendio ao corpo, marca do capeta. Mas, os marinheiros ingleses (as vezes eles) espalharam a moda pelo mundo lá pelo século XIX, e de tal modo, que levou a Coroa Britânica a adotá-la como meio de identificação.

Mais tarde, numa época sombria, outro povo usou a tatuagem como meio de identificação de prisioneiros, mas eles não merecem sequer registro.

Com essa bela história, a tatuagem avançou pelo século XX e chegou até os tempos atuais quase incólume.

Quando era garoto, lembro-me de ouvir meu pai dizer que tatuagem era coisa de maconheiro, ou de presidiário, o que não deixa de ser verdade. Essa fama, porém, ao invés de prejudicar sua imagem, emprestou ao desenho no corpo uma aura de rebeldia desejada. Uma tatuagem era sinal de que o sujeito era cult, revoltado, fora do sistema.

Não à toa, há registros importantes de tatuagens em livros, filmes, músicas, desenhos animados, como forma de determinar a personalidade forte (Popeye), indelével (Tatuagem, Chico Buarque), ou marginal (Cabo do medo) das personagens. 

Essa impressão encheu minha cuca até que, numa bela tarde de verão, eu e minha esposa esticamos a toalha na areia da praia e o avistamos: A passos lentos, malemolente, carioquíssimo, o rapaz saiu do mar e passou por nós, embevecidos com o emblema da cerveja Brahma tatuado em seu peito.

A arte, cujo sentido ainda não compreendi, talvez esteja no antagonismo de juntar uma das maiores marcas de contracultura da história, com o que há de mais sistemático, organizado, pastoreado, programado, que é a logomarca de uma empresa multinacional (Gozado pensar que a outra experiência que vivi nesse sentido – o do antagonismo, foi com um professor de pós-graduação, conhecido e respeitado Procurador de Justiça do Rio de Janeiro, cuja imagem seria mais facilmente associada à de um Hell’s Angel com o corpo quase fechado por tatuagens, e que, segundo a lenda, viajava todo ano à Polinésia para acrescentar um desenho ao corpo).

A partir dali, começaram a pipocar tatuagens tribais sem sentido, desenhos animados,  nomes de namoradas, as indefectíveis fotos de bebês (!), estrelinhas como as da Monique Evans, copiadas pelo Léo Moura, e tudo foi piorando, e piorando, e piorando, a ponto de hoje em dia ser cult ter o corpo limpo.

Contribuiu para isso, tenho certeza, a propaganda de médicos que dizem ter descoberto um meio de acabar com tatuagens indesejadas. Assim, a madrinha de bateria está livre para tatuar no bumbum o nome que desejar, e a cada ano pode apagar e tatuar outro, por toda a eternidade (tivessem descoberto alguns anos antes, enterrariam a citada composição do Chico).

Eu admito que tatuagem seja algo pessoal e seu significado interesse apenas ao dono do corpo (e nem vou falar de um tempo em que o ‘íntimo’ perdeu o sentido, isso é outro papo), mas o fato é que chegamos ao tempo em que uma tradição usada (pelo bem e pelo mal) por milênios como meio de identificar singularidades de determinados povos se transformou em algo tão comum, que não serve mais para identificar ninguém. Melhor, identifica a todos como iguais.

Infeliz amarelo, num mundo em que todos gostam do azul.